Entidade informou nesta quarta-feira que 12 casos da doença já foram detectados no país; outras 289 pessoas tiveram contato com algum infectado. Vacinação está sendo ampliada, mas população teme buscar tratamento. Pessoas caminham por uma barricada no mercadão de Kinshasa, na República Democrática do Congo, na terça-feira (9), quando comerciantes protestaram pela reabertura de lojas, fechadas para conter a disseminação da Covid-19.
Arsene Mpiana / AFP
O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta quarta-feira (10) que acabar com o novo surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC), declarado no dia 1º, será “uma luta difícil”.
“Vocês podem imaginar o quão difícil é combater o ebola nessa área, mas nós estamos fazendo o melhor para lidar com isso, e esperamos que, como em 2018, consigamos pará-lo. Mas gostaria de dizer que será uma luta difícil”, declarou Tedros.
O novo surto está ocorrendo no oeste do país, na província de Équateur, onde foram identificados dois pontos de transmissão do ebola; os primeiros casos foram detectados na cidade de Mbandaka, perto da fronteira com a República do Congo.
Surto de ebola na República Democrática do Congo
G1
Segundo a OMS, 12 casos da doença já foram confirmados; oito das vítimas, incluindo dois profissionais de saúde, morreram.
“O que é preocupante é: dois trabalhadores de saúde sendo infectados e duas mortes em nível comunitário [fora de centros de tratamento]”, explicou o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan.
O epidemiologista Jimmy Whitworth, professor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, explica que o fato de trabalhadores de saúde terem morrido indica falta de cuidados necessários para evitar a contaminação.
“Além disso, se os profissionais de saúde se infectam, a chance é que eles passem para outros pacientes, então o surto se acelera em um hospital. Os trabalhadores de saúde veem mais pessoas em um dia que a média”, explica Whitworth.
Dos 12 casos da doença, 9 foram confirmados em laboratório; 3 foram diagnosticados com base na ligação que tinham com os que tiveram a doença confirmada. Outras 289 pessoas foram identificadas como tendo tido contato com algum dos casos confirmados. Nas últimas 24 horas, 88% delas foram rastreadas e tiveram a temperatura checada.
A OMS informou que 600 pessoas foram vacinadas – incluindo as que tiveram contato com os casos confirmados e as que tiveram contatos com os contatos. Outros 227 profissionais de saúde na linha de frente do combate ao vírus também foram imunizados.
Temor ao tratamento
Michael Ryan, diretor-executivo do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS)
Christopher Black/OMS
Ryan explicou que há centros de tratamento montados no país, com dois desses centros tratando os outros 4 casos confirmados. O problema, afirmou Ryan, é convencer as pessoas a buscarem tratamento.
“Se você pensar nos fatores de risco que impulsionam doenças, o fato de que houve mortes na comunidade, de que há casos a nível comunitário que não querem vir ser tratados em um centro de tratamento e o de termos profissionais de saúde afetados são preocupantes”, disse.
“Nossos colegas na Unicef e outras organizações estão trabalhando muito próximos de nós para engajar as comunidades e construir a aceitação para rastrear os contatos”, completou Ryan.
O epidemiologista Jimmy Whitworth, professor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, explica que as pessoas temem ir aos centros de tratamento.
“Existe o medo de que, se você for aos hospitais, não sai vivo. Muitas pessoas que vão morrem; as pessoas sentem como se fosse um centro de morte. Não é um medo lógico, mas, como as pessoas veem muitas entrarem e morrerem, ele existe”, explica Whitworth.
Além disso, apesar de serem poucos, os casos estão espalhados. “Esses números estão distribuídos ao longo de uma área bastante grande, e ainda estamos, claro, investigando a origem do surto”, explicou Ryan.
Segundo Ryan, a cepa do vírus do ebola responsável por este surto é a mesma que causou outro surgimento da doença em 2018, também na região de Mbandaka, quando 33 pessoas morreram.
Também é o mesmo tipo que está por trás de outro surto da doença, no leste da RDC, explica Whitworth. Para o epidemiologista, o fato de os novos casos provavelmente terem vindo da floresta é tranquilizador, porque é o que normalmente acontece.
“Quando há surtos em pessoas, normalmente começa em animais, e as pessoas são infectadas pelos animais da floresta, normalmente morcegos. Não tivemos surtos em dois anos [no oeste do país], então, se viesse de humanos, o que está acontecndo? Não há casos leves que você não notaria”, explica.
Difícil acesso
Soldados marroquinos da missão da ONU na República Democrática do Congo (Monusco) patrulham Djugu, território de devastado pela violência no leste do país. Foto de 13 de março
Samir Tounsi / AFP
Os especialistas destacaram o fato de que o local do surto é de difícil acesso. Em 2018, disse Tedros, ele e Ryan foram a Mbandaka e a Bikoro, outra cidade da província de Équateur.
“Foram ncessários 3, 4 meses para controlar o surto – de maio a agosto. Aquele lugar é um lugar muito difícil, especialmente os problemas logísticos – de movimentar as coisas de Mbandaka para Bikoro. Um lugar muito difícil – são 150 km, mas leva mais de um dia para atravessar”, explicou Tedros.
“Há grandes desafios logísticos em termos de aumentar a resposta”, completou Ryan. “O desafio que nós enfrentamos na província de Équateur são longas distâncias, comunidades muito, muito espalhadas, muitas bem dentro de florestas equatoriais, mas conectadas à grande cidade de Mbandaka, que fica bem no rio Congo”.
“Temos aqui essa mistura de uma situação que está potencialmente emergindo de dentro da parte profunda da floresta, mas está conectada, por meio da urbanização, a uma grande via navegável que está conectada por meio de Kinshasa [capital da RDC] ao resto do mundo”, explicou.
“Em muitos sentidos, é um microcosmo de surgimento de doença e um desafio que todos nós encaramos coletivamente, com gratidão a todos os cientistas e profissionais de saúde – de saúde pública, enfermeiros, médicos – na RDC que, mais uma vez, estão na linha de frente para proteger o mundo de mais um surgimento de ebola”, completou Ryan.
Ele e Tedros se disseram confiantes na capacidade da República Democrática do Congo de lidar com o novo aparecimento da doença.
“Acho que o Congo demonstrou tremendo avanço na capacidade de administrar eventos epidêmicos complexos, tanto cientificamente como operacionalmente e logisticamente”, declarou Ryan.
“A RDC tem boa experiência em combater ebola, e estão fazendo o melhor, e isso nos dá esperança e nós devemos continuar a apoiá-los de forma a acabar com isso o mais rápido possível”, afirmou Tedros.
Além dos surtos de ebola no leste e no oeste do país, a RDC também enfrenta a pandemia da Covid-19 e o maior surto de sarampo do mundo, segundo a OMS, com 369.520 casos e 6.779 mortes pela doença desde 2019.
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