Pesquisa da USP ajuda a explicar por que algumas mães infectadas pelo vírus geraram bebês com a doença, e outras não. Estudo abre caminho para medicamentos contra a doença. Mosquito Aedes aegypti é o tranmissor da zika, dengue e chikungunya.
Rodrigo Méxas e Raquel Portugal/Fundação Oswaldo Cruz/Divulgação
Pesquisadores brasileiros publicaram um estudo inédito no mundo sobre as possíveis causas da microcefalia em bebês cujas mães foram expostas ao vírus da zika. Publicada na capa da revista Science nesta terça (9), a pesquisa indica que alterações no DNA, em proteínas e em neurotransmissores podem ser parte da explicação para que algumas mães infectadas deem à luz bebês com microcefalia, e outras não.
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Com tecnologia 100% nacional, os cientistas analisaram dezenas de milhares de genes, proteínas e RNAs para entender quais eram as diferenças entre os cérebros de bebês que morreram por complicações da microcefalia e o de bebês que morreram por outras causas. Mudanças nos genes, colágeno reduzido e glutamato em excesso, são algumas das explicações.
“Esse foi o primeiro passo para poder falar para o mundo inteiro: essas daqui são as moléculas afetadas pela doença”, explica Helder Nakaya, um dos principais autores do estudo e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF-USP).
Especialista observa exame de imagem de um bebê com microcefalia em hospital do Recife, em foto de 26 de janeiro de 2016
Reprodução/TV Globo
“O motivo de somente algumas mães infectadas terem filhos com a doença sempre intrigou a gente. Um dos motivos de não sabermos explicar é porque não sabíamos como o vírus atua dentro do cérebro do bebê”, afirma o cientista. Segundo ele, isso se deve à dificuldade em conseguir amostras de cérebros de bebês infectados. “É muito difícil abordar uma mãe que acaba de perder um bebê”, conta.
O vírus da zika está associado ao aumento de recém-nascidos com microcefalia. Ele foi diagnosticado pela primeira vez no Brasil em 2015. Até dezembro de 2019, o Ministério da Saúde confirmou 3.474 casos no país. Estudos sobre a doença apontam que, a cada 1.000 gestantes infectadas pelo vírus, 50 a 420 podem dar à luz a bebês com a síndrome.
“Geralmente, um cientista escolhe uma ou duas proteínas, por exemplo, que ele quer estudar. A gente utilizou uma tecnologia capaz de cruzar milhares desses dados ao mesmo tempo”, explica Nakaya.
Os pesquisadores analisaram o cérebro de oito bebês que morreram em decorrência das complicações da microcefalia e outros quatro sem a doença —o chamado grupo controle— para comparar a diferença entre eles.
O estudo concluiu que parte da explicação se deve a mutações no DNA. “São 3,2 bilhões de letras no código de um DNA. Algumas alterações nessa sequência dão suscetibilidade à microcefalia”, afirma o professor da USP.
Os pesquisadores constataram que bebês com microcefalia tem nível reduzido de colágeno. Essa proteína é responsável por manter a estrutura normal dos tecidos. Tê-la em menor quantidade poderia explicar a destruição do cérebro.
Outra hipótese que surgiu a partir do estudo está relacionada à ação do glutamato na microcefalia. Pesquisas anteriores já apontavam que, em excesso, esse neurotransmissor pode ser tóxico. Os resultados nos cérebros analisados mostraram evidências de que o glutamato pode ter um papel importante na síndrome congênita do vírus da Zika.
O pesquisador Nakaya ressalta que esses são alguns exemplos entre centenas de outros fatores que ajudam na explicação. “A maioria das doenças não são explicadas por uma razão isolada. Essa síndrome é muito complexa, e não há apenas uma causa possível”, diz.
Essa análise, que teve início em 2016, é um passo em direção a busca por medicamentos para a microcefalia e também facilita pesquisas futuras.
“Agora, um cientista de outro país pode olhar a nossa pesquisa e avisar que conhece um medicamento que pode ajudar a resolver o problema do colágeno, por exemplo”, explica o professor da USP.
“E outros cientistas podem olhar essa nova lista e escolher uma ou duas coisas para fazer mais pesquisas. Se você tem uma aposta mais guiada, olhando para uma lista que passou de dezenas de milhares de possíveis locais afetados pela microcefalia para algumas centenas, o conhecimento pode avançar bastante”, afirma o pesquisador.
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