Pessoas que ainda não tiveram os sintomas, mas podem apresentar, têm alta capacidade de transmissão. Pesquisadora da OMS estava se referindo apenas às pessoas que jamais irão desenvolver qualquer tipo de sintoma. A líder técnica de programas de emergência da entidade, Maria van Kerkhove
Reprodução/OMS
A chefe do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Maria van Kerkhove, disse em resposta à imprensa nesta segunda-feira (8) que a transmissão da Covid-19 por pacientes sem sintomas da doença parece ser “rara”. Fora de contexto e sem explicar a diferença entre assintomático e pré-sintomático, a frase não mostra o que realmente as evidências sobre o assunto indicam. Especialistas explicam a questão (veja mais abaixo).
Antes de detalhar a declaração e a sua repercussão, é importante ressaltar que Kerkhove explicou que a pesquisa está em andamento. São evidências sobre quando uma pessoa pode infectar mais outras pessoas com Covid-19. Há a necessidade de uma busca científica por mais dados para afirmações contundentes.
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Nesta terça (9), Kerkhove voltou a falar sobre o assunto e explicou que “é um mal-entendido afirmar que uma transmissão assintomática globalmente é muito rara, sendo que eu estava me referindo a um subconjunto de estudos. Também me referi a alguns dados que ainda não foram publicados”.
Fala da OMS sobre transmissão de assintomáticos foi tirada do contexto, explica biólogo
Outro ponto importante a ser explicado é a diferença entre pacientes assintomáticos e pré-sintomáticos. Uma pessoa com o Sars CoV-2 assintomática é a que nunca desenvolve os sintomas da Covid-19 (os mais comuns são febre, tosse e dificuldade para respirar). Um paciente pré-sintomático está com o vírus em circulação no corpo, mas no período de incubação, prestes a desenvolver os sintomas dentro de alguns dias.
Natália Pasternak, bióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), PhD com pós-doutorado em Microbiologia, esclarece este ponto em suas redes sociais. Ela diz que “assintomáticos são aqueles que testam positivo, mas nunca chegam a desenvolver sintomas. E como sabemos disso? Porque os testamos repetidas vezes, eles continuam positivos, mas sem sintomas”.
“Tem também aquelas pessoas com sintomas leves, mas que não correlacionam isso com doença, e como sintoma é subjetivo, já viu a confusão que isso pode causar. Então, primeiro já fica óbvio que não é tão simples assim determinar quem é pré-sintomático ou com sintomas muito leves”.
“Outra coisa importante: os pré-sintomáticos transmitem antes e durante os sintomas, e os sintomáticos leves transmitem o tempo todo sem perceber. E os assintomáticos? Não sabemos!”, completou.
O que Maria van Kerkhove estava tentando explicar era justamente este ponto que ainda não sabemos. Como funciona a transmissão de pacientes que nunca irão desenvolver os sintomas? O ponto importante é entender que as pessoas com Covid-19 ainda no início da infecção, em fase pré-sintomática, são capazes de passar o vírus para outras pessoas.
A explicação de Kerkhove durante entrevista nesta segunda-feira foi alvo de críticas e dúvidas. Horas depois, em seu perfil no Twitter, ela reforçou justamente que há essa diferença entre pacientes assintomáticos e pré-sintomáticos. Além disso ela recomendou a consulta ao guia da OMS publicado na sexta (5), que trata do uso de máscaras para a proteção.
No documento, a entidade diz que “estudos mais abrangentes sobre a transmissão de indivíduos assintomáticos são difíceis de conduzir”, mas cita um trabalho como exemplo. A pesquisa aponta que, entre 63 indivíduos assintomáticos estudados na China, havia evidências de que 9 (14%) infectaram outra pessoa.
No mesmo documento, a OMS alerta: “Os dados disponíveis até o momento, que tratam de casos de infecção em pessoas sem sintomas são decorrentes de um número limitado de estudos com pequenas amostras que estão sujeitas a revisões e não podem dizer se eles carregam a transmissão.”
Entre os pesquisadores, a declaração foi criticada por ter soado ambígua. Entre os críticos que ajudaram a esclarecer o pronunciamento esteve o diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Harvard, Ashish K. Jha.
O pesquisador de Harvard argumentou no Twitter que infectados que não apresentam sintomas são uma forma importante para a transmissão da Covid-19. E explicou que apenas 20% dos infectados não desenvolverão nenhum sintoma. Os outros 80% poderão desenvolver sintomas leves ou mais duros da doença.
“Muitos deles já espalham o vírus antes de desenvolver sintomas”, disse Jha. “Eles são, tecnicamente, pré-sintomáticos e não assintomáticos.”
Ele ponderou que a OMS diferencia os dois casos e ressaltou que há mais casos de indivíduos pré-sintomáticos que assintomáticos.
Rastreio de contatos
Na manhã desta terça-feira (9), o biólogo Átila Iamarino também esclareceu o assunto em entrevista à Globo News (assista vídeo acima a partir de 9 minutos e 15 segundos). “É uma colocação muito infeliz e muito tirada de contexto por parte da OMS”.
“A recomendação deles de cuidado das pessoas e de distanciamento social continua sendo a mesma. Nós não sabemos quem vai manifestar ou não os sintomas, quando as pessoas vão transmitir o vírus, por isso todo mundo precisa continuar usando máscara e mantendo o distanciamento social, e recolhido, se possível”, disse Iamarino.
“Quando a OMS falou sobre isso naquela entrevista, eles estavam falando sobre o rastreio de contatos. Que é fazer uma coisa que o Brasil tem feito muito pouco: ter uma equipe de pessoas dedicadas para quando alguém aparece com sintomas no hospital ou em algum teste, você rastrear os contatos dessas pessoas (…) para ver quem mais tem Covid-19 naquela região”
“Nesse sentido, o que a OMS queria dizer com esse pronunciamento é que nesse rastreio, o principal contágio, a principal transmissão, que vale a pena ser investigada, é a transmissão dos casos sintomáticos”.
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