Idosos mostram como conseguem lidar com emoções negativas e as restrições impostas pela pandemia Assisti a uma palestra on-line de Daniel Mograbi, PhD em psicologia e neurociência pelo King´s College London e professor da PUC-Rio e da UFRJ, sobre como lidar com os sentimentos durante a pandemia. Ele explicou que não se pode separar o físico da mente, por isso é preciso se conectar com o corpo e prestar atenção nos sinais: “as sensações corporais expressam emoções e não nos damos conta de que refletem um sentimento”. O exercício de nomear e detalhar o que se passa conosco é importante: “quanto mais palavras para descrever, mais rica a tapeçaria que se vai tecendo”, afirmou.
Segundo o professor, o sentimento que aflora tem valor de aprendizagem, ou seja, é uma ferramenta que permite que nos relacionemos com uma situação que não é positiva e ninguém desejou: “o objetivo é ressignificar a experiência, um processo difícil, mas também o mais eficiente. Por isso a psicoterapia demora, criar novos significados não é trivial”. Referindo-se aos idosos, que têm sido duramente atingidos pelo isolamento exigido para conter a pandemia, o doutor Mograbi destacou que são mais capazes do que se imagina para enfrentar o desafio: “os mais velhos têm uma regulação emocional maior, são mais resilientes no gerenciamento das emoções negativas. São competências que a gente desenvolve ao longo da vida e nas quais podemos nos apoiar nessas horas”.
Cecília Di Monaco, de 81 anos, mora sozinha e faz bordados que pretende vender. O dinheiro será usado para comprar cestas básicas que serão doadas
Álbum de família
Fui então em busca de histórias para ilustrar a teoria e não foi difícil encontrá-las. Cecília Di Monaco tem 81 anos, mora sozinha em São Paulo e, antes da quarentena, tinha uma rotina agitada: “costumava sair todos os dias, fazia pilates, trabalhava como voluntária”. Agora, além de cuidar da casa, dedica-se aos bordados à tarde: “aprendi a bordar aos 70 anos e tomei gosto. É como se eu pintasse um quadro. Quando acabo, fico feliz. Bordo toalhas de bandeja, rosto, lavabo, banho, e panos de cozinha. Vendo as peças no Natal e parte do que arrecado utilizo para comprar cestas básicas e doar”, diz. Matando as saudades dos três filhos, seis netos e três bisnetos através de videochamadas, ensina como lidar com a pandemia: “tudo isso que está acontecendo é para dar uma chacoalhada no mundo, para que as pessoas se ajudem mais, sejam menos egoístas. Tenho fé numa mudança”.
Jacy de Souza Motta, de 78 anos, tenta se ocupar arrumando a casa. No tempo livre, se diverte com o celular: “além dos joguinhos, gosto de colorir os desenhos, alguns bem complicados”. Apesar de estressada com o noticiário e cheia de saudades da neta e dos bisnetos, se mantém firme: “é viver um dia de cada vez. A gente tem que se preservar e preservar os entes queridos”. Argentina Rodrigues de Castro acabou de completar 95 anos e tem a sorte de morar com uma filha e ser vizinha da outra, cujo apartamento fica no mesmo andar. Lê jornal, conversa com as amigas por telefone, cozinha, faz cueiros de flanela para recém-nascidos e tem um mantra: “vamos teimando” – aliás, estou pensando em adotar o lema.
Fábio Marcondes conta que a mãe, de 77 anos, ajuda a neta de 12 com as lições de casa. Apesar de entristecida porque desde o começo de março não põe os pés na rua, dona Marly Marcondes de Mattos manda um recado: “o universo está nos dando uma lição e teremos que aprender a nos reinventar após tudo isso”. Therezinha Ribeiro Zugaib, de 81 anos, é outra que não sai há três meses, mas transita com desenvoltura nas redes sociais e aplicativos. Alterna tricô, costura, leitura e aulas on-line com caminhadas dentro do apartamento. Lamenta estar perdendo as mudanças rápidas que ocorrem na infância dos netos, que têm entre 8 meses e 5 anos, e diz que faz sua parte: “por mim e para não pôr a vida do próximo em risco. Tenho certeza de que tudo isso vai passar”. O filho, Eduardo, resume o que pensamos sobre a força desses idosos: “diariamente, agradeço o quão privilegiado sou por tê-la presente, com tanta serenidade, lucidez, otimismo e amor à vida. Se eu conseguir ser um décimo do que ela é, essa fortaleza espiritual que já encarou a morte de três filhos, o câncer que consumiu meu pai durante dois anos e o levou, entre outras tantas perdas dolorosas e perrengues de toda ordem, já me considerarei vitorioso”.
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