Quem estava acostumado a transitar pela Rua Augusta, na região central de São Paulo, antes da pandemia, sempre viu movimento, muito por causa dos bares e baladas que há anos são a marca registrada do endereço.

A região do eixo central da cidade, no geral, é conhecida por ser boêmia e, diante da crise causada pela covid-19, muitos estabelecimentos podem acabar fechando as portas ou se transformando — seja por dinheiro ou pela consciência da responsabilidade.

O empresário Facundo Guerra, CEO do Grupo Vegas e hoje dono de casas como Lions, Riviera, Bar dos Arcos, Z Carniceria, Blue Note e Cine Joia, foi um dos responsáveis por revitalizar a região do Baixo Augusta há cerca de 15 anos. Ele explica que nunca viu nada parar eventos como o novo coronavírus

“A pandemia foi recebida pelo setor com luto e com certo desespero. Estávamos passando por um período de recessão difícil, poucos estavam com caixa acumulado e a covid-19 colocou uma pedra em cima de qualquer perspectiva de retomada que existia no início do ano.”

De acordo com ele, a tendência é que agora pode haver uma alta das festas de rua. Ele destacou, inclusive, que mesmo durante a quarentena os bailes funk continuam acontecendo na periferia.

A preferência pelo simples também deve se sobressair diante de opções sofisticadas. “Como essa indústria de eventos é muito diversificada, cada setor vai ter um impacto diferente. No geral, as pessoas vão ter menos dinheiro e serão tempos de austeridade”, completa Guerra.

‘Estamos lidando com vidas’

DJ Click, um dos responsáveis por casas como o Espaço Desmanche, o Sputnik Bar e o Irregular, ressalta que suas casas já estão para indo o terceiro mês parado. “Fechamos ainda antes da quarentena para preservar nosso público e o nosso staff. O impacto é imenso e não temos incentivo algum do governo.”

A alternativa encontrada por ele foi a criação do Sput Go!, serviço delivery que atende nos aplicativos para celular. De acordo com ele, a entrega está indo bem e o serviço deve ser mantido pós pandemia. No entanto, ele não descarta a possibilidade de fechar as portas.

Nem é um questão da data [para reabrir], é consciência mesmo. Penso em retomar quando as coisas estiverem bem estabilizadas, penso também em retomar como bar, distanciamento de mesas e todas as medidas de segurança. Estamos lidando com vidas. Uma festa cheia de gente vai levar bastante tempo ainda, terá o receio do público e acho que a normalidade só será alcançada quando essa tal vacina chegar. Já que o trabalho de isolamento por aqui foi um fracasso sem precedentes, vamos levar mais tempo”, disse DJ Click. 

Segundo ele, a forma que a retomada no setor vai acontecer depende da criação ou não de uma vacina. “Se daqui poucos meses descobrirem, as coisas em pouco tempo voltarão ao que era antes porque terá clima e segurança. Se demorar muito tempo ou até mesmo não conseguirem desenvolver, estamos falando de uma total reinvenção na noite paulistana”, finalizou.

‘Lá as pessoas podem ser quem não podem ser em casa’

A 1007, casa noturna que costuma concentrar grande público LGBT na Rua Augusta, resolveu dar uma pausa. “Como não temos previsão de volta, não tem muito sentido continuar pensando em alguma coisa se o nosso foco é o encontro e o entretenimento”, explicou Alexandre Sandall, gerente de Marketing e Produto da marca.

Segundo ele destacou, a crise é sentida na relação com os funcionários, com os fornecedores e com o público. “A gente deixa bem claro que a 1007 é um lugar que as pessoas podem ir para serem quem quiserem, quem às vezes elas não podem ser dentro de casa. Com as portas fechadas, o público perde esse lugar.”

Para Alexandre, a empresa tentou de tudo. “Fizemos loja online para vender produtos, fizemos lives, enquetes, festa online. Tentamos de todas as formas possíveis, mas tudo o que fizermos é diminuir o lugar mágico que a 1007 é. Não dá para levar isso para dentro da casa das pessoas.”

“A 1007 está fechada hoje fisicamente, mas nada impede de reabrir no ano que vem ou de outra forma. Mas não iremos fazer nada que fuja do nosso foco principal, que é reunir as pessoas e promover as interações com respeito e tudo o que as pessoas valorizam.”

Bares

Apesar de terem uma previsão de retomada mais próxima que as baladas, junto dos restaurantes, donos de bares também estão preocupados. Se tudo ocorrer bem com a flexibilização da quarentena na capital paulista, a Fase 3 do programa de reabertura pode chegar já em julho.

Para o dono do conhecido Bella Jaú, Donizete Silva Dias, a crise já causou impactos. No mercado há seis anos, ele precisou vender uma das suas quatro unidades – uma das que ficava na Vila Madalena. “Já gastei mais de 70 mil entre aluguel, funcionários e serviços. Cheguei a tentar fazer delivery, mas não tivemos sucesso. Acabei montando uma adega para vender as bebidas.”

Agora o bar está funcionando na Rua Peixoto Gomide, em uma das unidades na Vila Madalena e na Barra Funda. “Eu planejei fazendo fundo de caixa durante o ano e está ajudando nesse momento. Mas não sei até quando dá para suportar, uma hora acaba.”

Há pouco metros de um dos endereços de Donizete funciona o Caixote Bar. O endereço, outro tradicional da Rua Augusta, está lá há quase quatro anos e agora tenta se reinventar.

Fechados há dois meses e meio, o impacto monetário está sendo bastante intenso. É o que explica o Hugo Varanda, proprietário do estabelecimento. “Como nosso serviço é de coquetelaria, consegui suspender o contrato dos funcionários pela regra do governo por 60 dias. Mas assim que reabrirmos, pretendo fazer delivery de drinks.”

Entre as expectativas para o ano estava o lançamento de um segundo andar, onda vai funcionar um karaokê, batizado de Caixokê. Com a pandemia, as obras foram temporariamente paradas. “Quando reabrir as portas vai ser como um novo começo para todos. As pessoas não vão aglomerar, mesmo com a reabertura elas vão ter medo de sair”, projeta Hugo.

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