O Dia dos Namorados — data mais aguardada pelos casais apaixonados, é comemorado no Brasil nesta sexta-feira (12). No entanto, desta vez, a celebração do amor ganha novos contornos em meio à pandemia da Covid-19. Em dates virtuais ou intermináveis ligações de vídeo, os namorados recorrem à tecnologia para dar um “chega pra lá” na saudade durante a quarentena, que já completa mais de três meses no País. Surpreendentemente, o isolamento social e as mudanças nas dinâmicas dos relacionamentos não estão impactando apenas os casais, mas também os solteiros.  

Os aplicativos de relacionamento têm experimentado expressivos crescimentos durante a pandemia, alguns deles atingindo até mesmo recordes de audiência. O Tinder, app de paquera mais usado do Brasil, registrou a maior quantidade de swipes (o famoso arrastar pra lá e pra cá) de toda sua história em 29 de março; além disso, apenas no Brasil, os papos aumentaram em média 25% e estão 20% mais longos. Já um levantamento do Happn, forte concorrente do Tinder, além de contabilizar alta de 18% na troca de mensagens desde o início do isolamento, apontou um inesperado comportamento na plataforma: mais de 60% dos usuários disseram que o isolamento os motivou na busca por um relacionamento sério — e este resultado rapidamente se multiplicou em outras pesquisas. 

De acordo com o estudo “O Cenário dos Encontros”, conduzido pelo aplicativo The Inner Circle, a impossibilidade de contato imediato levou 76% dos solteiros brasileiros a acreditarem que a Covid-19 fez as pessoas se preocuparem mais em encontrar conexões reais. Os resultados ainda indicam que os novos encontros virtuais podem se tornar relações duradouras: 42% dos solteirões estão otimistas de que é possível encontrar um parceiro de longa data durante a crise e, 8 em cada 10 que já estão trocando mensagens com alguém durante a pandemia, acreditam que o date seguirá após o isolamento.

A paulista Aline Oliveira, de 21 anos, encontrou seu amor no Rio de Janeiro usando um aplicativo de relacionamento ainda no começo do isolamento social. “Durante as primeiras semanas de quarentena cedi à pressão, baixei o Tinder e dei match com o Roberto. Começamos a conversar, vimos que éramos muito parecidos e não paramos nunca mais. Em duas semanas já sabíamos a vida inteira um do outro, os defeitos, problemas mais sérios e fases mais sombrias”, conta. 

“Nunca esperei me relacionar com alguém que more há 400 km de distância. Por isso que, quando me apaixonei por ele, fiquei ainda mais surpresa. Eu nunca teria o conhecido se não fosse a quarentena”, conta a estudante ao reforçar que resolveu instalar o app de paquera para distrair a cabeça durante a pandemia.  

Apesar dos contratempos impostos pela doença e as novas dinâmicas de convívio social, Aline já idealiza uma série de planos com Roberto para o pós isolamento – compondo, dessa maneira, o número de brasileiros solteiros que pretendem seguir com os dates ao final da pandemia. “Estamos há mais de dois meses juntos, cada vez mais envolvidos. Inclusive, já até comprei as passagens para o Rio, para o encontrar quando a quarentena acabar. Brincamos que já estamos namorando – o sentimento é esse, mas só vamos oficializar pessoalmente”, conclui. 

‘Pandemia’ virou assunto principal

Os assuntos, que antes giravam em torno de amenidades e, muitas vezes, rapidamente evoluíam para um encontro presencial, agora ficam ao redor do tópico que dominou o país: a pandemia causada pelo novo coronavírus. De acordo com o levantamento do The Inner Circle, o tema está dominando as conversas. Desde que o Brasil começou a adotar medidas de isolamento em meados de março, houve um grande aumento nas menções a “isolamento” (639%), “pandemia” (221%) e “distanciamento social” (158%) no aplicativo. 

Apesar disso, também há quem queira fugir da realidade. Uma pesquisa conduzida recentemente com os usuários do Badoo no Brasil mostrou que 59% consideram a troca de mensagens uma ótima forma para se distrair de tudo o que está acontecendo. Além disso, para 57% os aplicativos são agora mais importantes do que nunca, considerando o contexto de distanciamento social. Dentre eles, 62% disseram sentir-se menos sozinhos quando usam as plataformas, e 54% estão interessados em ter dates digitais. Para os entrevistados, as possibilidades de uma companhia são inúmeras: 48% já fizeram um encontro por telefone, 43% realizaram uma chamada de vídeo, 35% jogaram algo online e 25% assistiram séries e filmes juntos.

Amanda Lordello, de 27 anos, saiu do diálogo e partiu para a prática. Apesar de já ser adepta dos apps de relacionamento há algum tempo, o uso se tornou maior durante a quarentena, e na impossibilidade de um encontro presencial, ela optou pelo virtual. “Eu estava sem fazer nada e ele também. Ele sugeriu ‘vamos fazer uma vídeo chamada?’ e eu: ‘vamos!’ Foi legal, mas bastante constrangedor”, conta. 

Para a jovem, que tem um relacionamento aberto, o conteúdo das conversas nos aplicativos continua variando bastante, mas normalmente há menções ao isolamento social. “Acabamos sendo obrigados a comentar coisas do cotidiano. Mas percebo que as conversas ficam apimentadas com mais rapidez, talvez devido à carência da quarentena”, diz.

A psicóloga Renata de Moraes Busch explica que, em grande parte, as relações estão passando por um processo de ressignificação, já que os usuários estão impedidos de usar os aplicativos de relacionamento como antes, sem perspectivas de concretizar os encontros físicos e sexuais, além de também viverem um momento conturbado com a pandemia. 

“As pessoas estão mudando um pouco a função do aplicativo na medida em que não estão sendo apenas construídos relacionamentos descartáveis. Durante a pandemia todo o resto está muito descartável, o isolamento trouxe um sentimento de solidão muito forte, então os aplicativos serviram, em certa medida, para aproximar as pessoas”, diz. 

Entretanto, a psicóloga reitera que as novas formas de se relacionar nos aplicativos podem ser oportunidades, mas não constituem uma regra. “Alguns usuários devem ressignificar os encontros, outros não. Não acredito que haverá como via de regra um ‘novo normal’ nas relações, mas com certeza há pessoas que estão aproveitando este momento para refletir e repensar o lugar do afeto.”

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