Foram identificados 13 indígenas Xavante infectados pelo novo coronavírus após a morte do bebê de Marãiwatsédé, em Alto Boa Vista. Terra Indígena Marãiwatsédé, do povo xavante, em Mato Grosso, enfrenta crescimento de casos do novo coronavírus
BBC/ ADRIANO GAMBARINI/OPAN
O povo Xavante somava 13 indígenas infectados pelo novo coronavírus até essa quinta-feira (4), segundo levantamento da Operação Amazônia Nativa (Opan). Até agora é a única etnia que tem índios contaminados.
Entre essas pessoas, duas estão internadas e um bebê de oito meses da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Alto Boa Vista, morreu no dia 19 de maio.
Últimas notícias sobre o novo coronavírus em MT
A vulnerabilidade desse povo é um dos principais fatores que tem contribuído para o aumento no número de casos na região, conforme estudo da Opan, que monitora as terras indígenas do estado.
“Uma sucessão de fatores combinados agrava a exposição do povo Xavante ao novo coronavírus, como a precária estrutura básica de atendimento à saúde, aspectos de sua organização sociocultural, seu perfil epidemiológico e as pressões no entorno de seus territórios”, revela a pesquisa.
Moradores da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso
Cimi/Arquivo
Atualmente, Mato Grosso conta com 55 mil indígenas que são atendidos por seis Dseis.
Dados do Distrito Sanitário de Saúde Indígena (Dsei) Xavante apontam que apenas 91,5% das aldeias têm uma Unidade Básica de Saúde Indígena, o que mostra a falta de estrutura na região para combater qualquer tipo de doença que se venha a se espalhar pelas aldeias.
De acordo com a Operação Amazônica Nativa, o povo Xavante, o mais numeroso do estado, tem mais de 21 mil moradores distribuídos em nove terras indígenas. Todo esse grupo é atendido pelo Dsei Xavante.
“Contraditoriamente, é o que dispõe de estrutura mais reduzida em termos proporcionais”, diz o relatório.
Na TI Marãiwatsédé, por exemplo, existe apenas uma unidade de saúde para atender mais de mil xavantes que moram por lá. Segundo a Opan, são aproximadamente 400 pessoas a mais que a média de indivíduos por unidade básica de saúde no Dsei Xavante.
No passado, indígenas marãiwatsédé lutaram por décadas para recuperar suas terras em Mato Grosso
BBC/MARCELO OKIMOTO/OPAN
A Opan revelou ainda que não há médico na aldeia há quase um ano. O povo Marãiwatsédé conta apenas com uma equipe técnica composta por um dentista, uma enfermeira, quatro técnicos de enfermagem, sendo que uma está de licença e não foi substituída, quatro Agentes Indígenas de Saúde (AIS), três Agentes Indígenas de Saneamento (Aisan) e um auxiliar bucal para atender o total da população em nove aldeias espalhadas por 165 mil hectares de terra.
Em nota, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), informou que, desde janeiro deste ano, tem promovido ações de informação, prevenção e combate ao novo coronavírus nas comunidades indígenas de Mato Grosso.
“Com a atual expectativa do crescimento de infecções pela Covid-19 no Brasil, os esforços da Sesai, juntamente com os 34 Distritos Sanitários Especiais (Dseis), tem se redobrado para garantir a saúde dos povos indígenas. A detecção e correção de possíveis problemas e a realização de novas ações, baseadas nos protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde para o combate ao coronavírus, respeitando as especificidades dos povos indígenas, têm sido frequentes”, diz em trecho da nota.
A secretaria disse ainda que as equipes multidisciplinares de saúde indígena estão sendo orientadas a priorizar o trabalho de busca ativa domiciliar de casos de Síndrome Gripal (SG) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), realizando a triagem dos casos, evitando a circulação de pessoas com sintomas respiratórios.
“Sugere-se que, preferencialmente, não se tenha sala de espera nos serviços. Para isso, a equipe deve comunicar à comunidade que priorizará o atendimento domiciliar, sendo que os agentes de saúde devem informar ao enfermeiro ou médico os casos sintomáticos respiratórios para que ocorra o atendimento domiciliar”, explica.
Aldeia xavante
Gcom-MT
Organização Xavante
Outro ponto que põe em risco a contaminação dos índios ao novo coronavírus, é a forma de organização das aldeias Xavante, com casas muito próximas umas das outras, somada à quantidade elevada de pessoas por casa, e a dinâmica da vida social, com os contatos inevitáveis do cotidiano Xavante.
A Opan informou ainda que, aspectos mais sensíveis da cultura Xavante, como o processo de enterro de seus mortos, por exemplo, têm considerável potencial de se transformarem em eventos de alta propagação da Covid-19 nas aldeias.
“Por serem pontos sensíveis, um diálogo intercultural eficaz, que apresente resultados concretos com relação a compreensão e mobilização das comunidades, é condição de sucesso na implementação de qualquer política pública de saúde indígena em contexto de pandemia”, diz no relatório.
Conforme o estudo, os funerais tradicionais desse povo também podem contribuir para o aumento no número de casos de Covid-19 em terras indígenas.
No caso da morte registrada em Marãiwatsédé, segundo a Opan, o caixão do bebê foi levado para a aldeio e o velório foi feito na casa da família, com o caixão aberto. No entanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta que os caixões de casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 sejam lacrados, para evitar a propagação do vírus.
Estudo revela que indígenas Xavante estão vulneráveis
BBC/ ADRIANO GAMBARINI/OPAN
Medidas
O Ministério da Saúde disse que até agora já foram enviadas três remessas de insumos aos Dseis de Mato Grosso, totalizando mais de 400 mil itens. As duas primeiras remessas foram enviadas no mês de abril e a terceira remessa no início de maio.
A Sesai disse ainda que enviou aos Dseis, até o momento, 183,4 mil unidades de máscara cirúrgica, 25.790 máscaras N95; 166,1 mil luvas de procedimento descartáveis; 11.332 unidades de avental cirúrgico descartável; 5,8 mil de toucas descartáveis; 126 unidades de álcool em gem 70% (250mL); 5.664 unidades de Álcool em gel 70% 500mL; 3 unidades de Álcool em gel 70% 5L; 12 unidades de Álcool em gel 70% 1L; 111 unidades de Óculos de proteção e 10.580 unidades de Testes Rápidos para COVID-19.
“Todos estes insumos complementam os estoques próprios dos 34 DSEI, que também mantém processos permanentes de aquisição de equipamentos, possibilitando assim que todos os colaboradores e, consequentemente, os indígenas estejam devidamente protegidos”, afirma.
No entanto, além disso, a Operação Amazônica Nativa recomenda que seja feita a construção de uma estratégia intercultural de isolamento social junto com as lideranças Xavante.
O documento também recomenda a contratação de Agentes Indígenas de Saúde (AIS) para todas as comunidades das terras indígenas do povo Xavante e a formação desses profissionais para realizarem a busca ativa dos casos suspeitos de Covid-19 nos territórios, com ampla testagem nas aldeias, principalmente na Marãiwatsédé.
A instituição recomenda, também, que sejam cumpridas, na prática, as quarentenas, supridas as necessidades de medicamentos, contratados mais profissionais de saúde e que seja feita uma perícia para verificar a real situação do atendimento à saúde indígena no Dsei Xavante.
Veja mais notícias do estado no G1 Mato Grosso.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui